Publicado por Redação em Saúde Empresarial - 29/04/2026 às 07:58:23
Afastamentos por saúde mental expõem crise na gestão de pessoas nas empresas brasileiras
Crescimento de licenças médicas por transtornos mentais revela falhas estruturais e pressiona RH a rever modelos de trabalho e liderança.
O aumento recorde de afastamentos por transtornos mentais no Brasil não pode mais ser interpretado como um fenômeno isolado ou passageiro. Para especialistas, o cenário atual reflete uma combinação preocupante entre crise de saúde pública e falhas estruturais na forma como muitas empresas vêm gerindo pessoas.
Para Eduardo Melo, psicólogo e supervisor de Saúde Mental da HealthBit, os dois fatores caminham juntos. O crescimento dos afastamentos está diretamente ligado a ambientes corporativos que favorecem o adoecimento, ao mesmo tempo em que amplia a pressão sobre o sistema de saúde e previdência.
Segundo ele, organizações marcadas por alta pressão, jornadas extensas, metas inalcançáveis, assédio, falta de autonomia e ausência de suporte da liderança não apenas geram estresse, mas contribuem para o desenvolvimento de patologias. Nesse contexto, o trabalho deixa de ser apenas um fator de desgaste e passa a atuar como elemento estruturante do adoecimento.
A discussão também reposiciona o papel do indivíduo. Embora fatores pessoais existam, cresce o consenso de que o problema não pode ser atribuído exclusivamente ao colaborador. A forma como o trabalho é organizado exerce influência direta sobre a saúde mental. O exemplo mais evidente é o burnout, reconhecido como resultado de estresse crônico no ambiente profissional.
Para Eduardo Melo, investir apenas em resiliência individual não resolve o problema. Nenhuma capacidade de adaptação sustenta um ambiente cronicamente tóxico. Essa constatação desafia o RH a olhar menos para soluções pontuais e mais para a revisão estrutural dos processos de trabalho.
Os impactos dessa realidade já são visíveis nos indicadores de negócio. Produtividade comprometida, aumento do turnover, absenteísmo e o chamado presenteísmo, quando o profissional está fisicamente presente, mas mentalmente esgotado, geram perdas significativas para as empresas. Dados globais apontam que o adoecimento mental no trabalho representa prejuízos bilionários, reforçando que o tema deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar.
Nesse cenário, tratar saúde mental como benefício opcional se torna insustentável. Para o especialista, empresas que não atuam de forma preventiva acabam arcando com custos invisíveis que, ao longo do tempo, se tornam estratégicos e financeiros.
A atualização da NR-1 reforça essa mudança ao exigir que riscos psicossociais sejam identificados, monitorados e mitigados. Embora ainda exista o risco de respostas superficiais, como campanhas isoladas ou ações pontuais, a tendência é que a regulamentação pressione por mudanças mais profundas nos processos e na gestão.
Um dos principais desafios está no desalinhamento entre discurso e prática. Muitas empresas afirmam valorizar o bem-estar, mas mantêm estruturas que incentivam sobrecarga, pressão constante e jornadas extensas. Iniciativas como aplicativos de meditação ou espaços de descompressão, quando desconectadas da realidade do trabalho, têm impacto limitado.
Outro ponto crítico é a forma como as organizações lidam com o adoecimento. Ainda é comum encontrar empresas que atuam apenas de forma reativa, intervindo quando o problema já resultou em afastamento, queda de performance ou desligamento. Esse modelo, segundo Eduardo Melo, evidencia falta de preparo para identificar riscos, prevenir o adoecimento e oferecer suporte adequado.
O custo dessa abordagem é elevado. Continuar normalizando o sofrimento psíquico em nome da performance representa não apenas uma falha ética, mas também um risco jurídico e financeiro. Em contrapartida, investir na revisão da gestão, no desenvolvimento de lideranças e na construção de ambientes psicologicamente seguros tende a gerar retorno sustentável.
A liderança, aliás, ocupa papel central nesse cenário. Gestores são, na maioria das vezes, o primeiro ponto de contato diante do esgotamento das equipes. No entanto, muitas empresas ainda negligenciam a formação emocional e relacional desses profissionais, priorizando competências técnicas em detrimento da capacidade de gerir pessoas.
Esse desequilíbrio contribui para o aumento do estresse e da insegurança dentro das equipes. Promoções baseadas apenas em desempenho técnico, sem preparo para liderança, ampliam o risco de ambientes desorganizados e emocionalmente instáveis.
Embora canais de escuta sejam importantes, especialistas alertam que eles não são suficientes. O verdadeiro desafio está na transformação estrutural. Sem mudanças reais nos processos, metas, comunicação e cultura, a escuta tende a gerar frustração e descrédito.
Para Eduardo Melo, a saída passa por uma abordagem integrada. Revisão de processos, maior autonomia, flexibilidade, comunicação segura e investimento na capacitação de lideranças são caminhos para reduzir o estresse crônico e criar ambientes mais saudáveis.
No fim, o aumento dos afastamentos por saúde mental não representa apenas uma tendência passageira. Ele evidencia o esgotamento de um modelo de trabalho baseado em pressão constante, hiperconectividade e busca incessante por resultados.
A entrada em vigor da NR-1 acelera esse processo ao transformar a saúde mental em uma obrigação legal. Mais do que atender à norma, as empresas se veem diante de uma escolha estratégica. Continuar operando no modelo atual, assumindo os custos do adoecimento, ou redesenhar a forma de trabalhar, colocando as pessoas no centro da sustentabilidade do negócio.
Fonte: Mundo RH



