Publicado por Redação em Saúde Empresarial - 15/07/2026 às 09:53:53

NR-1 leva saúde mental à gestão de risco hospitalar

Pressão assistencial, jornadas extensas e falhas de liderança ampliam o risco de adoecimento entre profissionais da  saúde e exigem dos  hospitais ações estruturadas de prevenção.

A imagem do profissional de saúde capaz de enfrentar jornadas exaustivas, pressão constante e forte carga emocional ainda faz parte da cultura de muitos hospitais. Durante anos, suportar o desgaste foi interpretado como demonstração de vocação, resistência e compromisso com os pacientes.

O avanço dos afastamentos por transtornos mentais e a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), entretanto, colocam esse modelo sob questionamento. O sofrimento psicológico deixa de ser tratado apenas como uma questão individual e passa a integrar a  gestão dos riscos relacionados à organização do trabalho.

Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, crescimento de aproximadamente 15% em relação ao ano anterior. Na área da saúde, fatores como jornadas extensas, exposição ao sofrimento, equipes reduzidas e violência no trabalho aumentam a pressão sobre os profissionais, segundo análise divulgada pelo Conselho Federal de Enfermagem.

Estudos sobre burnout entre médicos apresentam resultados bastante diferentes, dependendo da especialidade, do país e da metodologia empregada. Uma revisão sistemática publicada no Journal of the American Medical Association encontrou estimativas que variaram de zero a 80,5%, evidenciando também a ausência de uma definição uniforme nos levantamentos analisados. A variação recomenda cautela na utilização de percentuais isolados.

NR-1 amplia responsabilidade institucional

A nova redação da NR-1 tornou explícita a necessidade de considerar os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Entre eles estão excesso de demandas, assédio, falta de autonomia, falhas de comunicação e conflitos na organização das atividades.

A mudança não significa que os hospitais sejam responsáveis por todo problema de saúde mental apresentado por um trabalhador. A norma trata dos riscos relacionados às condições em que o trabalho é executado, o que exige identificar perigos, avaliar sua gravidade e adotar medidas de prevenção.

Nos primeiros 90 dias após a entrada em vigor das novas disposições, a fiscalização tende a priorizar orientação, instrução e notificação das organizações. Isso não elimina a obrigação de adequação, conforme esclarecimento do Ministério do Trabalho e Emprego.

Para André Luz, consultor do HCX FMUSP e especialista em saúde mental corporativa e governança de riscos psicossociais, a atualização aproxima a saúde mental das discussões sobre compliance, sustentabilidade e segurança assistencial.

“Cuidar de quem cuida deixou de ser apenas um discurso institucional. Hoje, faz parte da sustentabilidade das organizações, da segurança dos profissionais e da própria capacidade de resposta do sistema de saúde”, afirma.

Adoecimento pode comprometer segurança assistencial

Nos hospitais, o debate ultrapassa os efeitos sobre absenteísmo e rotatividade. O desgaste emocional também pode aparecer por meio do presenteísmo, quando o profissional permanece trabalhando, mas apresenta redução da capacidade de concentração, tomada de decisão ou interação com a equipe.

Em ambientes de alta complexidade, esse cenário pode ampliar riscos para trabalhadores e pacientes. Por isso, a saúde mental precisa ser analisada em conjunto com dimensionamento de equipes, organização dos plantões, disponibilidade de recursos, comunicação entre setores e atuação das lideranças.

A transição de profissionais técnicos para cargos de gestão representa outro ponto de atenção. Médicos, enfermeiros e outros especialistas podem assumir responsabilidades gerenciais sem preparação suficiente para administrar conflitos, distribuir cargas de trabalho e conduzir equipes submetidas a situações críticas.

O problema, nesse caso, não pode ser atribuído somente ao comportamento do gestor. A organização também precisa oferecer formação, suporte decisório, critérios claros e condições para que a liderança consiga atuar preventivamente.

Campanhas isoladas não alteram o trabalho

A oferta de atendimento psicológico, práticas de autocuidado e campanhas educativas pode ampliar o acesso à orientação. Essas iniciativas, porém, não substituem intervenções sobre os fatores que provocam ou intensificam o risco.

Uma instituição pode oferecer programas de bem-estar e, simultaneamente, manter jornadas excessivas, equipes insuficientes, metas incompatíveis com a capacidade operacional ou ambientes tolerantes ao assédio. Nessa situação, o cuidado tende a tratar consequências sem modificar as causas relacionadas ao trabalho.

A prevenção exige uma abordagem coletiva. Isso inclui revisar escalas, acompanhar a distribuição das demandas, preparar gestores, fortalecer canais de denúncia e garantir que profissionais possam relatar riscos sem sofrer retaliação.

Também é necessário evitar que o discurso da resiliência seja utilizado para transferir integralmente ao trabalhador a responsabilidade por suportar condições inadequadas.

Impactos alcançam as contas hospitalares

O adoecimento psicológico pode provocar afastamentos, perda de profissionais experientes, necessidade de substituições emergenciais e maior custo de recrutamento. Dependendo do reconhecimento do nexo com o trabalho, também pode produzir repercussões previdenciárias e influenciar indicadores relacionados ao Fator Acidentário de Prevenção.

Estudo da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais estima que os transtornos mentais estejam associados a uma perda de R$ 282 bilhões no Produto Interno Bruto brasileiro. A projeção foi elaborada com base em dados de 2019 e busca dimensionar efeitos sobre produção, emprego e renda; portanto, não representa exclusivamente custos suportados pelas empresas ou pelo setor  hospitalarFIEMG

Para as instituições de  saúde, o custo também pode aparecer na interrupção de serviços, na sobrecarga dos profissionais que permanecem nas equipes e na dificuldade de manter padrões assistenciais.

Instrumentos apoiam diagnóstico, mas não são obrigatórios

Questionários como o Copenhagen Psychosocial Questionnaire (COPSOQ) podem auxiliar o mapeamento das condições psicossociais de trabalho. Já o Maslach Burnout Inventory (MBI) é utilizado para avaliar dimensões associadas ao burnout, como exaustão emocional, despersonalização e percepção de realização profissional.

Essas ferramentas podem apoiar o diagnóstico organizacional, mas não devem ser utilizadas isoladamente nem tratadas como exigência específica da NR-1. O Ministério do Trabalho informa que as organizações podem escolher as técnicas e metodologias mais adequadas, desde que sejam fundamentadas, compatíveis com os riscos e coerentes com as condições avaliadas.

O MBI também não substitui uma avaliação clínica individual. Os resultados coletivos precisam ser interpretados por profissionais qualificados e combinados com dados como afastamentos, rotatividade, jornadas, incidentes, denúncias e dimensionamento das equipes.

A coleta ainda exige confidencialidade. Utilizar respostas individuais para punir trabalhadores ou identificar pessoas consideradas “menos resilientes” pode comprometer a confiança e desestimular a participação.

Prevenção depende de continuidade

Para André Luz, o avanço regulatório pode ajudar a transformar fatores antes considerados invisíveis em indicadores acompanhados pela  gestão. O desafio será impedir que a adequação se limite à aplicação de questionários ou à produção de documentos para eventual fiscalização.

O inventário de riscos precisa resultar em planos de ação, responsáveis, prazos e acompanhamento dos efeitos das medidas adotadas. Sem essa conexão, a instituição poderá cumprir etapas formais sem reduzir a exposição dos profissionais.

A pergunta “quem cuida de quem cura?” deixa, portanto, de ser apenas uma provocação. Para os hospitais, ela passa a envolver segurança ocupacional, continuidade da assistência, governança e responsabilidade institucional.

Proteger os profissionais de saúde não significa eliminar toda pressão de uma atividade naturalmente complexa. Significa impedir que sobrecarga permanente, desorganização e práticas abusivas sejam naturalizadas como parte inevitável da profissão.


Fonte: Mundo RH (Francisco Carlos)


Posts relacionados

Saúde Empresarial, por Redação

Adoecimento por bets afeta empresas com faltas, funcionários endividados e pedidos de adiantamento

Companhias organizam campanhas de conscientização e orientam procura de atendimento especializado. Afastamentos por jogo compulsivo avançaram 60% em 2025, mas casos ainda são menos de mil

Saúde Empresarial, por Redação

Maus hábitos de saúde dos funcionários podem custar caro às empresas

Uma força de trabalho saudável é vantajosa para os negócios. Por outro lado, perdas de produtividade relacionadas à saúde custam quase R$ 3 trilhões aos empregadores.

Saúde Empresarial, por Redação

Comer durante a noite pode desregular o 'relógio alimentar'

Durante as férias e festas de fim de ano, é comum comer mais tarde do que o usual, ou mesmo no meio da noite. Estudos mostram que essas atitudes podem desregular o 'relógio alimentar' presente no organismo, que controla os períodos em que o corpo se prepara para se alimentar.

Saúde Empresarial, por Redação

Empresa de biotecnologia inicia testes de vacina contra Parkinson

Empresa de biotecnologia austríaca iniciou recentemente testes em humanos para elaborar uma vacina terapêutica contra a doença de Parkinson. No Brasil, a doença atinge entre 100 a 200 pessoas em cada grupo de 100 mil habitantes, de acordo com o Ministério da Saúde.

Saúde Empresarial, por Redação

Saúde amplia equipes que atuam na Atenção Básica

Foram habilitadas 42 Equipes de Saúde da Família, 865 Agentes Comunitários de Saúde, 95 Equipes de Saúde Bucal e 44 Núcleos de Apoio à Saúde da Família.

Saúde Empresarial, por Redação

Exame para detecção de anemia falciforme é incluído no pré-natal

No ultimo dia 8 de março, o Ministério da Saúde anunciou a inclusão do exame para a detecção da anemia falciforme na lista dos procedimentos realizados no pré-natal na rede pública de saúde.

Deixe seu Comentário:

=