Publicado por Redação em Saúde Empresarial - 03/06/2026 às 00:15:07

Estudo inédito: Índice de Maturidade em Bem-Estar do Brasil

Uma mão branca de manequim equilibra uma barra horizontal com duas esferas brancas, uma maior à esquerda e outra menor à direita, sobre um fundo cinza escuro

Um índice inédito revelou que as organizações brasileiras ainda são reativas e pouco inovadoras no cuidado com suas pessoas. Apesar da crescente adoção de práticas de saúde integral, os dados do primeiro Índice de Maturidade em Bem-Estar do Brasil evidenciam que temos um longo caminho de evolução, liderado por poucas organizações pautadas por políticas amplas e consistentes.

O Índice foi construído a partir dos dados de 470 iniciativas de bem-estar, submetidas por 275 empresas de 25 setores econômicos ao 1º Melhores Empresas para (se) Bem-Estar, prêmio da Você RH realizado no ano passado. Em 2026, a coleta seguirá com a segunda edição do prêmioque está com inscrições abertas. Este raio X permite um diagnóstico da maturidade do tema bem-estar dentro das práticas das empresas, incluindo políticas de saúde física e mental, valorização do colaborador, engajamento, remuneração, pesquisa e desenvolvimento, entre outros aspectos.

Sou coautora da metodologia do prêmio, junto com os colegas Renato José de Souza e Fábio Josgrilberg, ambos professores e pesquisadores da EAESP-FGV. Criamos o formulário de inscrição com o objetivo de mensurar:

  1. Compromisso institucional e governança de cada iniciativa submetida ao prêmio
  2. Maturidade da estrutura de bem-estar da organização, olhando para a presença e consolidação de práticas estruturais em seis dimensões: Saúde Integral, Engajamento e Conexão, Valorização do Trabalho, Ambiente de Segurança Psicológica e Inclusão, Equilíbrio Vida-Trabalho e Futuro do Bem-Estar.

Faltam parcerias com universidades e estimular a desconexão digital

Ao olhar para as respostas, encontramos entre os inscritos uma grande diferença. As organizações finalistas – autoras de 35 iniciativas que chegaram à avaliação de um júri – alcançaram nota 94,9 no índice de maturidade, em uma escala de 0 a 100. Já as não finalistas tiveram média 82,4. Apenas 4,9% das iniciativas inscritas atingiram a pontuação máxima de maturidade. Isso indica que o bem-estar sistêmico, coerente e contínuo existe apenas em um grupo restrito de organizações brasileiras.

Além disso, o índice revelou nossas maiores fragilidades. A nota baixa veio da pergunta sobre parcerias com universidades ou centros de pesquisa para programas-piloto em bem-estar. A resposta “sim” apareceu apenas em 21% das submissões, o que revela a dificuldade das empresas em integrar ciência e inovação às suas políticas de bem-estar.

Este dado exige muita atenção nossa. Estamos olhando pouco para fatores que podem gerar estresses psicológicos e físicos que vão custar caro – tanto aos colaboradores quanto às organizações. Um exemplo: mesmo entre empresas que declaram oferecer apoio à vida pessoal e familiar dos colaboradores, apenas 49% têm também práticas de desconexão formal digital do trabalho.

Desconexão digital, aliás, foi o segundo pior indicador do grupo completo: somente 38,5% responderam “sim” à pergunta “A empresa possui alguma iniciativa que incentive a desconexão digital fora do horário de trabalho?”. Infelizmente vemos, com dados como este, que muito da discussão sobre bem-estar tem avançado apenas no discurso.

Área administrativa lidera ranking de riscos psicossociais

O que as melhores têm

Construção do futuro do bem-estar: experimentação, práticas preventivas e modelos de longo prazo, monitoramento de indicadores de saúde ou programas de mobilidade para a carreira de colaboradores. Tudo isso gera uma visão de longo prazo, que abandona a postura reativa e coloca qualquer organização em linha com as melhores práticas internacionais de gestão do bem-estar. Foi o maior fator de diferenciação entre finalistas e não finalistas.

Segurança psicológica: dimensão com maior pontuação entre finalistas. Isso sugere que organizações maduras possuem culturas capazes de promover confiança, pertencimento e respeito – elementos reconhecidos pela literatura como alicerces de equipes de alta performance e baixa rotatividade.

Equilíbrio entre vida pessoal e trabalho: as finalistas alcançaram valores próximos ao máximo nesta dimensão, enquanto o resultado das não finalistas variou muito. Evidência do que vemos no mercado na prática: uma grande dificuldade de se colocar limites às demandas de trabalho.

Saúde integral: neste campo, a grande maioria das finalistas teve nota máxima. O resultado nos sugere que as políticas de saúde nessas organizações estão consolidadas e estruturadas dentro da cultura.

Como avançar

Quando olhamos para o grupo todo – finalistas e não finalistas –, vemos que já estão amplamente em uso medidas que endereçam as dores mais imediatas dos colaboradores, como práticas de saúde mental, reconhecimento do trabalho, engajamento e políticas de proteção contra assédio.

Isso é ótimo, e precisamos celebrar como conquista. No entanto, as evidências científicas mostram que o bem-estar robusto exige também práticas estruturais, como aquelas presentes apenas em um grupo restrito no Brasil.

Precisamos avançar em:

  • Diversidade, avaliação de liderança, flexibilidade e desenvolvimento institucional do bem-estar (ex: incorporar o tema a planejamento estratégico, metas e rotinas). Nessas frentes, as práticas ainda estão muito desiguais nas organizações, e dependentes da maturidade gerencial de cada uma.
  • Políticas reais de desconexão digital.
  • Priorização do futuro do bem-estar.
  • Fortalecimento da liderança humanizada e baseada em evidências.

Bem-estar organizacional é uma capacidade sistêmica, construída ao longo do tempo, por meio de lideranças consistentes, consistência cultural e visão de futuro. O novo Índice de Maturidade em Bem-Estar do Brasil nos dá a grande oportunidade de nos ver no espelho como somos, e de assumir o compromisso de avançar. Pelo bem das nossas pessoas e das nossas organizações.

Fonte: Você RH


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