Publicado por Redação em Saúde Empresarial - 01/07/2026 às 00:30:04
Capacitação em primeiros socorros em saúde mental prepara líderes, RHs e equipes

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmam que uma em cada seis pessoas trabalhadoras vai enfrentar algum problema relacionado à saúde mental nos próximos 12 meses. Também apontam que depressão e ansiedade são responsáveis pela perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho por ano no planeta, com impacto estimado em US$ 1 trilhão em produtividade. Se já não bastasse tudo isso, o Brasil ainda tem de lidar com a própria liderança no ranking global de ansiedade, além da posição de ser um dos cinco países com maior incidência de depressão.
Não por acaso, vem crescendo entre as empresas o interesse por programas de Primeiros Socorros em Saúde Mental (PSSM), com a ideia de capacitar líderes, profissionais de RH e colaboradores a reconhecer sinais de sofrimento emocional, oferecer acolhimento inicial e orientar o encaminhamento adequado para ajuda especializada.
“A crise emocional nem sempre chega de forma evidente. Muitas vezes, ela aparece em pequenas mudanças de comportamento, como atrasos frequentes, isolamento, irritabilidade, falta de engajamento ou uma queda no desempenho”, pontua Luis Gonzales, CEO e cofundador da Vidalink. “Quando esses sinais passam despercebidos, o sofrimento pode se agravar e os impactos são sentidos tanto pela pessoa quanto pela organização”.
A ideia não é substituir terapia
Segundo o executivo, a proposta do PSSM não é transformar gestores em terapeutas, mas prepará-los para agir com segurança e empatia diante de situações delicadas. “Existe um receio muito comum entre líderes: o medo de falar algo errado. Mas, em muitos casos, o silêncio provoca mais danos do que uma abordagem acolhedora”, esclarece. “O papel da empresa não é substituir psicólogos ou psiquiatras, mas criar um ambiente onde o sofrimento seja identificado precocemente e as pessoas saibam para onde encaminhar quem precisa de ajuda”.
A capacitação também deve prever uma lógica de escala dentro das organizações. Ele explica que, em empresas de até 20 colaboradores, recomenda-se no mínimo uma pessoa treinada em PSSM; e entre 20 e 40 profissionais, pelo menos dois. Já em estruturas maiores, a orientação cresce proporcionalmente chegando, por exemplo, a cerca de 50 capacitados em uma companhia com até 1.000 colaboradores.
Na prática, os treinamentos incluem protocolos como o I.A.O.E.E, sigla que descreve o passo a passo da intervenção: (i)dentificar sinais e crises, (a)bordar, (o)uvir sem julgamento, (e)ncorajar a buscar ajuda e (e)ncaminhar para suporte especializado. Entre os sinais que merecem atenção, Luis aponta situações como ataques de pânico, crises de ansiedade, falas relacionadas à desesperança, isolamento excessivo e mudanças bruscas de comportamento.
Uma cultura com menos estigma
Para Gisele Caleffi, psicóloga e especialista em saúde mental corporativa, um dos principais desafios neste contexto é construir uma cultura organizacional que reduza o estigma em torno do sofrimento psíquico. “Muitas pessoas ainda evitam buscar ajuda por medo, vergonha ou receio de julgamento”, conta ela. “Por isso, é fundamental que o ambiente de trabalho seja preparado para ouvir, acolher e respeitar. Escutar é mais importante do que tentar resolver o problema imediatamente”.
Ela destaca que a abordagem inicial deve ser feita com cuidado, em espaços reservados e com escuta ativa, sem pressa ou interrupções. Perguntas simples e abertas, como “você gostaria de conversar?” ou “como você está se sentindo?”, podem ser um ponto de partida mais efetivo do que tentativas de solução imediata. Gisele diz também que, no caso de haver um evento como luto, separação ou sobrecarga evidente, o tema é ainda mais delicado e exige mais preparo de quem vai intervir. Para a especialista, delicadeza e empatia são fundamentais na hora de perguntar: “Como você está lidando com tudo isso?”.
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“Escutar é mais importante do que resolver. Esse é um ponto crítico, especialmente para lideranças, que muitas vezes sentem a necessidade de agir rapidamente ou dar respostas”, ressalta a psicóloga. “A escuta ativa e sem julgamento é um dos pilares desse processo. Muitas vezes, a pessoa só precisa ser acolhida com presença genuína”.
Cuidado com excessos e exposição
Gisele também alerta que, em períodos de crise, o excesso de estímulos pode agravar o quadro emocional. Reunir muitas pessoas ao redor, insistir em instruções, oferecer estimulantes como café ou pressionar por retomada imediata da rotina são atitudes que devem ser evitadas. O foco, segundo ela, deve ser reduzir a sensação de ameaça e promover segurança emocional.
Há ainda situações que exigem atenção imediata e encaminhamento urgente para suporte especializado, como falas relacionadas à morte ou suicídio, crises intensas de pânico, delírios, alucinações, insônia prolongada com sofrimento intenso ou comportamentos altamente desorganizados. “Nesses casos, acolher é importante, mas acionar ajuda especializada é indispensável”, destaca a psicóloga, que também orienta preservar o sigilo e a privacidade da pessoa, evitando qualquer exposição desnecessária.
Outro ponto é o respeito aos limites de atuação dos profissionais da empresa: líderes e RHs não são terapeutas e não devem realizar diagnósticos ou intervenções clínicas. “O papel organizacional é identificar, acolher e encaminhar”, reforça a especialista em saúde mental corporativa. “Quando há resistência em buscar ajuda profissional, a orientação é compreender os motivos da recusa, que podem estar ligados a custo, experiências negativas anteriores ou estigmas, e evitar insistência excessiva, exceto em casos de risco iminente à vida”.
O avanço da discussão sobre o tema, de acordo com Gisele, reflete uma mudança de visão mais ampla na forma como as empresas encaram o bem-estar dos colaboradores. Para ela, o sofrimento emocional foi tratado por muito tempo como uma questão individual. “Hoje, sabemos que ambientes tóxicos, excesso de pressão e culturas de silêncio contribuem para o adoecimento das pessoas”, afirma, ressaltando que falar sobre primeiros socorros em saúde mental não significa fragilizar o ambiente corporativo, mas torná-lo mais humano, seguro e sustentável. “Afinal, as pessoas se lembram, acima de tudo, de como foram tratadas”, conclui.
Fonte: Você RH


