Publicado por Redação em Mercado - 24/06/2026 às 08:38:53

4 formas de incorporar a IA nas empresas sem substituir o Trabalho Humano

Em um mundo cada vez mais dominado por algoritmos, o que separa os negócios que prosperam dos que ficam para trás não é a tecnologia em si, mas a mentalidade de quem a usa. Foi esse o cerne da palestra ministrada pelo escritor e especialista em transformação digital Andrea Iorio, durante o ESX Innovation Experience, evento promovido pelo Sebrae em Vitória (ES).

O mercado de inteligência artificial deve alcançar US$ 4,8 trilhões até 2033, segundo estimado pela Organização das Nações Unidas, impulsionado pelo uso por parte dos consumidores, empresas e governos. Um relatório da McKinsey estima que a tecnologia pode gerar entre US$ 17 e 25 trilhões em valor para a economia global, com ganhos de produtividade que variam entre 35% e 70%.

Para Iorio, essa nova era é sinônimo de descoberta e flexibilidade, enquanto as “certezas” que o ser humano tem aos montes são justamente aquelas capazes de bloquear a inovação. Não tem como fugir da IA, mas é perfeitamente possível se adaptar a ela. O argumento é ilustrado pelo surgimento da Polaroid, cujo ponto de partida foi o simples questionamento de uma criança de quatro anos: “Posso ver a foto que tiramos?”

“A reflexão que eu quero trazer é se algum adulto teria feito esse tipo de questionamento. Um engenheiro com 30 anos de experiência na indústria fotográfica? Com certeza não. Porque já tinha a convicção de que não havia tecnologia para tal feito”, diz Iorio.

Com a missão de orientar empresas e profissionais a extrair valor da tecnologia sem perder de vista a mão de obra humana, Iorio propõe uma matriz com quatro quadrantes que mapeiam os diferentes papéis que a IA pode desempenhar dentro e fora das organizações.


IA preditiva para uso interno: transformar dados em decisões antecipadas

O primeiro quadrante é o que Iorio chama de “Tell Me”, a IA sendo capaz de transformar o grande volume de dados gerados pelas operações em previsões acionáveis, função que se torna especialmente necessária diante do volume monumental de dados que as empresas precisam lidar.

Mais de 90% de todos os registros produzidos desde o início da humanidade foram criados apenas na última década. Hoje, o mundo acumula cerca de 181 zetabytes de informação, uma quantidade que, se armazenada em iPads empilhados, cobriria cinco vezes a distância entre a Terra e a Lua.

O problema é que diante de tantos dados, líderes tendem a repetir o que funcionou no passado. “Quando recebemos métricas além da nossa capacidade interna de processamento sem as ferramentas adequadas, nós acabamos tomando decisões piores”, explica. A IA preditiva quebra esse ciclo ao identificar padrões que o olho humano não consegue capturar.

A Mayo Clinic, nos Estados Unidos, é um dos exemplos mais citados nesse campo. A instituição deixou de se definir como um hospital tradicional para assumir a identidade de um “hospital inteligente”, cujo modelo de negócio migrou do tratamento de doenças para a prevenção e o monitoramento de riscos. Sensores coletam dados dos pacientes em tempo real e algoritmos identificam sinais de alerta antes que os sintomas se tornem crônicos, algo que médicos não conseguiriam fazer devido ao volume de casos e pacientes.

Mas Iorio reforça que o entusiasmo precisa vir acompanhado de cautela. A qualidade da IA preditiva depende diretamente da qualidade dos dados que a alimentam: bases com viés produzem sistemas enviesados, e dados incompletos levam à generalização e aos estereótipos. Há ainda o problema da explicabilidade, quando uma decisão tomada por algoritmo precisa ser justificada a um cliente. “A tecnologia é apenas tão boa quanto os registros utilizados no seu treinamento”, explica.

IA generativa para uso interno: da automação à aumentação

Iorio explica que 60% do tempo dos trabalhadores é consumido pelo que a empresa chama de “trabalho sobre o trabalho”: e-mails repetitivos, apresentações de slides, reuniões longas e improdutivas. Em contrapartida, um estudo da Accenture aponta que entre 35% e 55% das obrigações profissionais podem ser automatizadas.

No segundo quadrante, batizado de “Do It For Me”, a IA deixa de apenas fornecer respostas e passa a executar tarefas, principalmente as operacionais e pouco criativas, que normalmente humanos não querem ocupar.

Mas existe uma diferença importante entre automatizar — isto é, substituir uma etapa, devolvendo tempo à equipe — e aumentar, que consiste em usar a tecnologia para elevar a qualidade do que os humanos continuam fazendo. É nesse segundo caso que reside a maior oportunidade, segundo o executivo.

A parceria entre Nubank e OpenAI é um dos cases de maior sucesso que ilustram essa diferença. Enquanto bancos tradicionais implementaram robôs para substituir o atendimento inicial, gerando frustração nos clientes, o roxinho optou por usar a plataforma da bigtech para fortalecer suas equipes de suporte humano. Quando um usuário envia uma mensagem, o operador recebe automaticamente um resumo do histórico do cliente, o motivo do contato e uma sugestão de resposta. O humano permanece no controle, mas a tecnologia acelera e qualifica a entrega.

IA preditiva para uso externo: hiperpersonalização e experiências

No terceiro quadrante, “Tell My Customer”, a IA é direcionada para o relacionamento com o consumidor. O cliente contemporâneo, acostumado às experiências de plataformas com gratificação imediata, jornadas sem atrito, personalização em tempo real, passou a esperar de negócios menores o mesmo padrão global.

E é exatamente nesse ponto que a IA preditiva entra. Capaz de antecipar necessidades antes mesmo do consumidor é o que dá às empresas a chance de sair na frente da concorrência, saindo da posição de estar sempre correndo atrás de uma bola mais rápida que as pernas.

Em 2006, quando a Apple realizou grupos focais antes do lançamento do iPhone, os participantes pediam telas maiores e teclados físicos de plástico, nos moldes dos aparelhos BlackBerry da época. Ninguém havia imaginado uma tela sensível ao toque sem botões. Iorio explica que, se a Apple tivesse feito apenas o que o público solicitou, o resultado seria interessante naquele momento, mas não seria capaz de revolucionar a indústria de móbiles da forma que aconteceu.

IA generativa para uso externo: inovação em produtos

O quarto quadrante, “Do It For My Customer”, é o terreno da inovação em produtos e serviços viabilizados pela IA. É hora de ressignificar propósitos e entender que não adianta correr contra a transformação da IA, e sim entender como ela pode potencializar o negócio.

Iorio menciona como exemplo a John Deere, fabricante bicentenária de equipamentos agrícolas, que recentemente decidiu se redefinir como “uma empresa que vende inteligência para o agricultor”. Tratores e colheitadeiras passaram a contar com sensores, medidores e conectividade que coletam dados em tempo real. Em 2022, a empresa estabeleceu a meta de gerar mais de 10% de sua receita global com a venda de software. O resultado: a melhor avaliação de sua história na Bolsa de Valores.

Valorização das soft skills

A partir do momento que máquinas se tornam capazes de realizar atividades técnicas melhor que os seres humanos, as competências que passam a ser mais valorizadas pelo RH são as socioemocionais. A chamada teoria do “Game Over” defende que, em qualquer tarefa onde haja sucesso ou fracasso mensuráveis, é apenas uma questão de tempo para os computadores superarem os humanos. Nas últimas Olimpíadas de Matemática, por exemplo, a equipe vencedora foi um conjunto de algoritmos do Google. Notícias recentes indicam que a própria empresa já desenvolve 25% de seus códigos com IA, enquanto algumas companhias do setor chegam à marca de 90%.

Profissionais que se dedicarem à criatividade, pensamento crítico, trabalho em equipe e empatia se tornarão mais valiosos. “É incrivelmente difícil quantificar aptidões como empatia, colaboração, escuta ativa e comunicação. E, paradoxalmente, são essas habilidades que se tornam essenciais na atualidade”, explica Iorio.

Competências técnicas são fáceis de aprimorar, mas o que nenhum software consegue replicar é o desempenho social. “Os consumidores anseiam por personalização e baixo atrito oferecidos pela tecnologia, mas eles sempre querem saber qual é a intenção da pessoa por trás da operação”, finaliza.


Posts relacionados

Mercado, por Redação

Futuro do Trabalho: 4 tendências que prometem moldar o mercado em 2026

Novo estudo do Glassdoor revela um cenário de incertezas, com distanciamento entre líderes e equipes e dilemas para quem busca crescer na carreira

Mercado, por Suporte AWSoft!

ANS divulga dados de beneficiários em novembro de 2024

Planos de assistência médica registraram 51,5 de beneficiários

Mercado, por Redação

Mulheres CEOs: 50 líderes à frente das maiores empresas do Brasil e do mundo

Liderança feminina traz melhores resultados financeiros, além de mais inovação e bem-estar organizacional, mostram estudos; conheça executivas que construíram carreiras de sucesso.

Deixe seu Comentário:

=